terça-feira, 14 de junho de 2011

Construção

A impressão que tenho e não sobre o meu agora, mas sobre o meu sempre é que toda minha vida é uma construção. Tá, sei que a vida de todo mundo é feita de acúmulos, memórias, bagunça, crescimento, queda, empolgação, desempolgação.

Mas o aspecto da minha construção é o tumulto. Minha vida é bagunçada, tumultuada. Parece ter um objetivo não muito claro, faz planos e os vive. Às vezes começo a decorá-la, depois destruo tudo. Bate uma chuva e não consigo sair do lugar. Me reergo não para a certeza, volto para o tumulto.

Tumulto de felicidades de planos de agora e pros do futuro que eu brinco de sentir como será. E nenhum momento áureo fará com que a casa fique pronta, com que pare de ter terra na sala de estar. E nenhuma depressão me fará perder meus muros (ou pelo menos a maioria deles).

Tudo feito, desfeito, feito. Do mesmo jeito ou de outros. Parecem as mesmas lutas mas na maioria não são. O gosto da vitória. O sorriso orgulhoso. A perda de interesse. A reconstrução.

E não é que eu queira me fazer diferente ou que eu sempre esteja crescendo e crescendo. Estou lutando com esse termo ainda na minha cabeça, polissêmico demais, ou melhor, batido demais. Mas é que nunca senti tanta alegria como agora, nem tanta raiva, nem tanta vontade de viver, nem tanta vontade de me construir em casa, de construir a minha casa, a minha morada. E nessa casa, desculpem, amores, não tem quarto de visita.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Samba quente de final de tarde, é o que eu ouvi da esquina distante. Aproxima-se no compasso dos passos, deglutindo notas uma a uma. Samba quente e lento numa tarde sombria fez você vir a um passo tímido. Sobrancelhas apreensivas aqui, talvez um copo de cerveja ali.

Entrega-se.

Ainda mais como um sambista como eu, cheio de vícios e dissabores. Cheio de amores pelo amor. Descalço nos pés, na cabeça, na alma. Esperando só o batuque, para também ficar descalço de tantas obrigações.

Entrega-se.

Samba de hora certa. Chega em meio à rotina, àquele eterno cansaço. Mostra outros sambas, outros vícios, outros copos.

Apodera-se.